Olhares em números

terça-feira, 18 de agosto de 2009

O sublime e o infame na união do feminino e masculino em "Perfume: a história de um assassino".

*continuação ao comentário crítico publicado logo abaixo.
Seguimos abaixo com uma breve leitura da narrativa de Perfume, buscando principalmente evidenciar a possibilidade de interpretação da trama como uma alegoria da relação do ser humano com os arquétipos femininos e masculinos que constituem sua personalidade e sua ontologia enquanto ser socializável.
A natureza humana, comum a homens e mulheres, comporta, em sua constituição psíquica, características arquetípicas relacionadas ao que chamamos de feminilidade e masculinidade. Segundo o estudioso de mitologia Joseph Campbell, o feminino guarda virtudes e perigos como: a maternidade, a sedução, a malícia, a vingança, a irracionalidade, a beleza, o encanto, a sensibilidade, etc.; enquanto o masculino abarca: a belicosidade, a proteção, a força, a justiça cruel ou complacente, o egoísmo, a racionalidade lúcida, a criatividade, a frigidez e a insensibilidade, a moralidade sóbria, etc.[1] Esses dois princípios, feminino e masculino, inerentes à estrutura da personalidade humana devem permanecer em equilíbrio, tanto no convívio do ser humano individual quanto coletivo. No entanto, desde séculos antes de Cristo, o masculino se sobrepôs ao feminino, subjulgando-o e marginalizando-o. O homem, assumindo plenamente os caracteres masculinos e reprimindo os femininos, impôs a submissão à mulher e a criança, cujo vínculo com o feminino é mais recente e intenso.
Na narrativa de Perfume, presenciamos o nascimento de uma criança em pleno mercado público, espaço onde desfila a miséria de uma sociedade estratificada e mesquinha. A podridão e a insalubridade do lugar despertam o bebê, cujo olfato mostra-se aguçadíssimo. Destituído do vínculo materno de forma brutal, a criança, ao chorar, acaba sendo responsável pela morte da própria mãe. Tal morte recai sobre uma mulher que se negou a assumir um dos arquétipos principais do feminino: a maternidade. O olfato apurado faz de Jean-Baptiste Grenouille um ser humano ávido pelos aromas do mundo e com profundo discernimento dos componentes da realidade que o cerca: uma Paris setecentista, berço do recente Iluminismo, onde se encontra o microcosmo da civilização européia da época e imperam plenamente os valores masculinos de poder e racionalidade sóbria e moralizadora.
As primeiras mortes que permeiam a trajetória do protagonista recaem sob personagens que de certa forma ocupam estratos sociais marcados por traços masculinos, como a frieza, a violência, o egoísmo e a insensibilidade, tornando os episódios indícios da perniciosidade do masculino potencializado no meio social.
Grenouille, em certo momento de sua formação, percebe que sente mais do que suas palavras podem exprimir. Tal característica não é tão extraordinária, uma vez que todos nós sentimos muito mais do que podemos expressar linguisticamente (uma das funções da poética na linguagem é justamente oferecer a possibilidade de significar os sentimentos).
Esta sua qualidade natural, porém, irá levá-lo a identificar o singular aroma de uma jovem, e é a partir da lindíssima e trágica cena, em que Grenouille, sôfrego, tenta absorver o odor efêmero do corpo nu da jovem já morta, que se revela um dos principais motivos dramáticos que irá conduzir a personagem até o desfecho da trama: a tentativa de preservar o aroma feminino.
Jean-Baptiste empreende uma busca particular por algo que percebe tão sublime quanto efêmero. Podemos pensar em Grenouille como um rapaz que busca possuir o que lhe falta, o que tanto deseja é como algo que lhe foi tirado. Sob uma perspectiva freudiana, temos uma personagem que sofre com a inversão do complexo de castração. Um homem, cujo feminino se atrofiou por influência da brutalidade do meio, e que procura inconscientemente possuir este feminino perdido.
Em um de seus primeiros contatos com ricos perfumes franceses, Grenouille conhece o famoso perfume Amor e psique. E, uma vez sentindo-o por toda a cidade, questiona sua qualidade, dizendo não ser um perfume muito bom.
Eros e Psique são personagens da mitologia grega, que personificam respectivamente: o “amor”, em sua extensão de paixão ardente e desejante, e a “alma”, no sentido grego de “sopro de vida”, representando também o princípio de alma, a qualidade da vida que se transforma. A estória de Eros e psique aparece pela primeira vez na comédia O Asno de ouro, de Apuleio, e narra a trajetória de um amor impossível, entre um deus e uma jovem mortal. Psique era uma donzela tão bela que foi capaz de despertar a fúria da deusa Vênus, que manda seu filho Eros (ou Cupido) castigar a jovem inocente. No entanto, Eros acaba apaixonando-se por Psique, e utilizando-se de um estratagema, leva-a para sua morada, a fim de desposá-la em segredo. Nem mesmo Psique sabia quem era seu marido, e num rompante de curiosidade, traindo a confiança de Eros, transgride a interdição que lhe impusera o belo esposo, descobrindo sua imortal beleza. Psique é abandonada por Eros, e passa por várias provas para reencontrar-se com seu amado e conseguir a imortalidade. Essa estória, de Eros e Psique, dramatiza a possibilidade de transcendência da alma quando impulsionada pelo sentimento do amor. Somente sob a influência do amor imortal, Psique conseguiu superar seus imperfeições mortais.
Ao reformular o perfume criado pelo artista (assim são nomeados os grandes perfumistas da época), Grenouille questiona a própria natureza falha e imperfeita da natureza humana, negando-a, e oferecendo à sociedade da época inebriantes perfumes, que atuam eficazmente como um simulacro de sensações aromáticas, que se originam da combinação de essências naturais como folhas e rosas, que se deixam morrer conservando o aroma intacto.
A grande “virada” na narrativa de Perfume dá-se a partir da primeira essência aromática extraída do corpo de uma prostituta. O aroma exalado pelos corpos femininos pode ser capaz de serenar o espírito mais exaltado e subordinar a alma mais racional. O perfume produzido com o aroma das jovens donzelas oferece a Jean-Baptiste Grenouille o poder de dominar os homens. A forma metódica com que retira o odor das jovens, semelhante a uma espécie de ritual pagão, revela certo culto ao corpo feminino, cuja nudez mantém-se velada em magníficos enquadramentos que retomam o tratamento dado a representação feminina nos quadros renascentistas, e que aludem à extraordinária beleza venusiana.
As vítimas de Grenouille denunciam a submissão do feminino nas diversas estruturas e instituições sociais: a prostituta; a noviça, encontrada morta, despida de seus hábitos, logo após o discurso inflamado de um bispo; camponesas e moças de baixa classe; e donzelas de classe alta, forçadas a casamentos arranjados e submetidas a um patriarcalismo despótico, lembrando também, que a proteção em excesso é característica de um masculino potencializado.
Jean-Baptiste, quando inquirido sobre o motivo de ter matado as jovens, revela ter-lo feito porque fora necessário. Assumindo pra si o peso de uma masculinidade exacerbada e confusa, Grenouille se apresenta como profeta de um sagrado feminino, da feminilidade ausente e negada pelo homem e pela sociedade dos homens. É sagrado o que é transcendente, avidamente esperado e cultuado pelos seres humanos. O desfecho da narrativa traz uma paradoxal cena final: numa praça do séc. XVIII, onde eram feitas execuções publicas de condenados, espaço de dor, flagelação e morte, Grenouille oferece aos homens o sacralizado aroma colido de belas jovens, o feminino ausente como algo imanente aos homens é ritualisticamente reincorporado por todos, homens e mulheres; a barbárie se esvai, e os extremos de um paradoxo se dialogam, temos o sublime e o infame despolarizados, a orgia concretiza a transcendência humana por meio do amor. Por um arrebatador instante de vida, os habitantes daquela cidade comungam a união entre o masculino e o feminino.
Após uma longa trajetória de experiências, Grenouille compreende que jamais experimentou a união a qual observou naquela praça. A perda de seu próprio odor e a inconsciente busca pelo odor da jovem ruiva, que encontrara numa noite, significam, para a construção da personagem do jovem perfumista, a incapacidade de amar e ser amado. E em um triste desfecho, em que se chocam extremos da natureza humana, Grenouille cobrindo-se do feminino, é consumido por um povo assolado pela miséria do mundo. Seu sacrifício, algo que faz unicamente por amor, assim como Psique, traduz o encontrou ontológico do feminino e masculino através de uma alma transcendente.



[1] CAMPBELL, J. Creative Mythology. In: JOHNSON, Robert. A. Feminilidade: Perdida e reconquistada. São Paulo: Mercuryo, 1991. p. 11.

Comentário crítico de "Perfume - a história de um assassino"


Perfume – a história de um assassino, dirigido pelo alemão Tom Tykwer (Corra Lola corra) e lançado em 2006, narra, com uma grandiloqüência formal fortemente pautada em suas origens literárias, a trajetória fabular de um jovem aprendiz de perfumista. Desde seu precário nascimento, em plena agitação matutina de um fétido mercado de peixes parisiense, acompanhamos a impressionante incursão de Jean-Baptiste Grenouille pelos repugnantes estratos da sociedade francesa do século XVIII. Dotado de apuradíssimo olfato e impressionante resistência física, Grenouille sobrevive milagrosamente aos primeiros anos de vida. Após ser desprezado pela mãe, mantido em um orfanato até certa idade, e depois vendido como força de trabalho a um insalubre curtume da cidade, Grenouille desperta o interesse de um decadente perfumista local, que, fascinado por seu talento em combinar aromas e compor indescritíveis essências, o contrata como aprendiz, comprometendo-se a ensiná-lo a preservar o aroma das coisas do mundo. O jovem mostra-se obstinado em apreender todos os aromas que o envolvem. Com sua extraordinária e inata capacidade olfativa, Grenouille é capaz de diferenciar todos os odores que percorrem as ruelas de Paris, e num lance do acaso, acaba encontrando o aroma de uma jovem ruiva que o inebria. Matando-a sem intenção, descobre que o extasiante aroma da jovem esvai-se de seu corpo sem vida. A partir do incidente e da influência de seu tutor, Grenouille empreende uma obstinada busca pela formulação de um perfume capaz de reunir 13 aromas de belas donzelas, dando início uma onda de assassinatos sem precedentes em uma pacata cidade francesa.

Com impressionante riqueza de detalhes e preciosismo estético, Tom Tykwer faz uma brilhante adaptação do trágico e surpreendente romance homônimo do escritor germânico Patrick Süskind. Em uma produção caríssima para os moldes europeus (mais de 65 milhões de euros), Tykwer compõe uma impecável sinestesia visual, abusando de planos-detalhes e da brilhante direção de arte, eficazes em mergulhar o espectador nas sensações olfativas do protagonista. Os contrastes de luz e sombra e o tratamento “renascentista” das cores presentes na rica fotografia de Frank Griebe convidam-nos a apurar um dos sentidos mais caros para a recepção de uma obra cinematográfica: a visão. E assim, somos enojados por ágeis planos-detalhes que realçam tanto a natureza infame dos ambientes fétidos de uma baixa Paris, com suas ruelas e edificações rudimentares e seus detalhados espaços urbanos que beiram ao escatológico; e também inebriados pela tomadas lentas e contemplativas, realçando o caráter quase sublime das cenas em que os aromas de rosas e de belas donzelas cruzam o olfato do jovem perfumista. Com atuações mais técnicas do que intensas, porém eficazes, e figurino impecavelmente realista e refinado, principalmente na composição dos farrapos encardidos dos miseráveis parisienses, Perfume – a história de um assassino peca apenas no uso excessivo de uma trilha sonora bem composta, mas entediante depois de alguns intermináveis minutos.

domingo, 9 de agosto de 2009

Comentário Crítico: "Operação Valkyria"


“Esta história se baseia em fatos reais”, indica o letreiro, que abre o filme Operação Valkyria, estrelado pelo ator americano Tom Cruise. Com boa qualidade técnica e sem grandes tropeços dramáticos, Operação Valkyria mostra-se eficiente como mais um bom exemplar de gênero hollywoodiano, mas que, no entanto, não se sustenta facilmente como representação contundente de uma tragédia histórica.

O filme narra a formação e o destino de um dos principais levantes contra o governo nazista, organizado em plena Segunda Guerra Mundial. Num contexto de crescente sufocamento da resistência alemã por parte das tropas aliadas, oficiais de alta patente do exército alemão organizam e executam uma complexa operação para matar Adolf Hitler e assumir o poder do Estado militar alemão, prometendo cessar os confrontos armados e promover um acordo de paz com os países inimigos, evitando assim que mais alemães morram nos campos de batalha.
A atmosfera de conspiração e a dissimulada relação que se mantém entre os oficiais do III Reich levaram o diretor Bryan Singer (X-Men e Os Suspeitos) a lançar mão de eficientes planos-detalhes ao longo da projeção, sempre direcionando o olhar do espectador para peças-chave na montagem da conspiração, como uma caixa de bebidas, um documento importante, um telefone, uma vitrola, uma maleta e até mesmo um olho de vidro, que aparecem em vários planos fechados. Com um figurino bem cuidado e detalhista, oferecendo-se aos atores como excelente aparato para a composição das personagens, e com cenários/locações que privilegiaram a ambientação realista da trama, além de criarem espaços intimidativos, como os quartéis de comando, com seus inúmeros corredores, salas e portas que se assemelham a arriscados labirintos, Operação Valkyria apresenta primor técnico em boas tomadas internas e externas, com destaque para a cena na qual um oficial nada sobre uma enorme suástica, e a brilhante cena em que encontramos o coronel Stauffenberg sob as edificações de uma igreja alemã em ruínas, evidenciando a fé do povo e do próprio Stauffenberg posta em ruínas pela opressão da guerra. No entanto, mesmo com uma direção de arte competente, a fotografia não foge ao convencional do gênero, mantendo os tons opacos e a pouca luminosidade sempre presente em filmes que retratam este período. Destaque, porém, para a interessante edição de som, principalmente quando temos o barulho ensurdecedor das máquinas de escrever simulando o som de disparo de inúmeras metralhadoras, muito bem aplicada na transição de uma das seqüências do filme, e que funciona como um motivo de presságio para o que ocorrerá aos conspiradores: a execução frente a um pelotão.
Operação Valkyria é um filme claramente pautado na ação e na movimentação das personagens, cujas seqüências dramáticas aparecem pontuadas por inúmeras frases de efeito e discursos inflamados, comprometendo assim, a manutenção de diálogos sólidos e ricos de conteúdo, que poderiam apontar para os traços de personalidade e de ideologia de cada personagem, aprofundando a análise de seus comportamentos ao longo da trama, como verificamos nos excelentes “A Lista de Schindler” e “A Queda – as últimas horas de Hitler”.
Tendo em vista principalmente este último filme citado, “A Queda!”, cabe constatar que, para um filme pautado na ação das personagens e nas relações dramáticas que se mantém entre si, inexiste a preocupação com o desenvolvimento das nuanças de comportamento e moralidade latentes em cada personagem histórico retratado na trama. Tom Cruise, como Coronel Claus von Stauffenberg, veste uma personagem pouco explorada emocionalmente (mesmo nos momentos românticos e paternos), contribuindo apenas com sua semelhança física e sua interpretação incisiva e obstinada. A personagem de Adolf Hitler, interpretada por David Bamber não convence, tornando-se mero coadjuvante, sem força dramática, ficando anos-luz de distância da brilhante interpretação do execrável Führer de Bruno Ganz, em “A Queda!”. Seguem os outros atores/personagens do círculo de oficiais, que em cena não desenvolvem características biográficas singulares das personalidades reais retratadas ali. Têm-se um quadro de personagens unilaterais, algumas martirizadas (como o mocinho do bem que morre) e muitas outras saídas do gênero de espionagem política: o obstinado comandante, o idealista fiel, o delator dissimulado, o comparsa disfarçado, entre outros, revelando, juntamente com o fraco roteiro (de Christopher McQuarrie e Nathan Alexander), um dos pontos comprometedores para uma leitura política e histórica relevante do período retratado na película.
Apresentando durante os 110 minutos de projeção uma maior preocupação com os elementos técnicos que iriam contribuir para o retrato realista dos espaços e do contorno dos personagens abarcados pelo roteiro, Bryan Singer mostrou-se pouco experiente na condução de dramas históricos, não desenvolvendo as complexas personalidades dos envolvidos na fatídica operação, figuras reais e empenhadas numa causa nobre, que se colocou, porém, comprometedora e mortal.
Deixando de lado uma abordagem próxima do documental, em que prevalece a análise realista dos fatos e personalidades históricas, Operação Valkyria prioriza a manipulação das seqüências motivacionais do roteiro, construindo a atmosfera conspiratória e emergencial do filme a partir de tomadas curtas e planos detalhes, valorizados e bem aplicados, principalmente nos 30 minutos finais da projeção (quando acontecem as ações das quais realmente desconhecemos o desfecho), e que ditam uma dinamicidade quase inquietante à caótica tentativa de tomada do poder central em Berlim pelos oficiais revoltosos, após a morte “antecipada” do Führer.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Comentário Crítico: "Harry Potter e o enigma do príncipe"


Acredito que a bem-sucedida franquia cinematográfica Harry Potter chega, com este 6º filme, ao mesmo nível técnico e estético já alcançado pela brilhante franquia de mesmo gênero audiovisual: a trilogia O Senhor dos Anéis.Por AINDA não ter lido os livros de J. K. Rowling, abstenho-me de discutir os aspectos de adaptação da obra literária para o suporte cinematográfico. Pretendo privilegiar uma discussão sobre as características cinematográficas deste 6º filme, sendo estas originais e complementares à leitura da obra literária. Pautando-me, também, nos outros filmes da série, prefiro comentar a produção cinematográfica de Harry Potter independentemente de seus livros, obviamente porque não os li, mas pensando, também, que qualquer adaptação constitui a transcriação ou recriação original de um conteúdo temático utilizando-se de um novo suporte e todos seus artifícios. Ou seja, não vamos desconsiderar a Arte do Cinema, mesmo quando esta Arte toma conteúdos literários como suporte narrativo.
Assim como ocorreu com o 3º livro, o 3º filme da série, Harry Potter e o prisioneiro de Askaban, marcou uma mudança de postura dos realizadores, deixando de lado a abordagem quase infantil do mundo mágico de Harry Potter, vista nos dois primeiros filmes. Desde o filme dirigido pelo cineasta Alfonso Cuaron (E sua mãe também e Filhos da Esperança), a série tem se mostrado envolta por uma atmosfera fria e sombria, marcada pelos tons acinzentados das paisagens externas e pela névoa que espreita os arredores de Hogwarts; o clima de conspiração e temor tornou as ações das personagens mais urgentes e perigosas, obrigando os protagonistas a amadurecerem mais rapidamente, o que significa, para cada um dos heróis, enfrentar os próprios traumas, medos e anseios da infância e adolescência.Harry Potter e o enigma do príncipe marca o momento de maior maturidade desta nova postura. Consolidando um estilo próprio de composição cinematográfica, este 6º filme da série apresenta, em sua padronizada estrutura narrativa[1], uma contundente solidez e coesão no desenvolvidos das tramas centrais e, principalmente, na construção das personagens, o que se mostra um ponto forte deste 6º filme.O filme tem início com uma incrível seqüência de ação na qual alguns bruxos do lado negro, os temidos comensais da morte, saqueiam e destroem lojas do Beco Diagonal, incrustado no centro de uma metrópole “trouxa”, deixando para trás presságios da catástrofe que poderia se abater sobre o mundo “trouxa”, caso você-sabe-quem determinasse uma invasão maciça a esse mundo.A partir desta primeira seqüência, o filme desenvolve-se sempre surpreendendo pelo extremo apuro técnico em sua montagem e edição de efeitos especiais, e constrói seqüências de tirar o fôlego, como a “última” viagem de Dumbledere e o passeio destrutivo de Helena Bonhan “Belatriz” Carter pelo salão principal de Hogwarts, no último ato do filme. Com um estilo ágil de filmagem, acompanhamos a câmera sempre se esgueirando por entre os corredores da escola. Podemos apreciar planos muito bem construídos, que valorizam a disposição das personagens em cena e a primorosa direção de arte, que, por sua vez, se mostrou capaz de transpor para o espaço físico toda desordem e devastação próprias do momento de conflito entre as forças do Bem e do Mal (destaque para a colorida loja dos Weasley, em contraste com o que resta do Beco Diagonal; e os inúmeros artefatos misteriosos da Sala Precisa).A própria arquitetura da casa dos Weasley, os bairros londrinos e principalmente Hogwarts, com suas salas, pátios, paredes, portas e janelas, mostraram-se eficientes para a condução da narrativa, criando em muitos momentos, a partir de excelentes movimentações de câmera e de enquadramentos bem explorados, ricas metáforas para os conflitos psicológicos vivenciados pelas personagens. Alguns aspectos me chamaram particularmente a atenção: no primeiro momento em que Harry Potter vislumbra Gina, ela está no andar superior da casa dos Weasley, e a arquitetura da casa permite observar a forma de torre vista por Harry, com Gina lá encima (sim, estou pensando nos Contos de Fadas), se tornando ainda mais interessante uma vez que a relação entre os jovens se dá nesta questão de descoberta da sexualidade e de encantamento dos hormônios (atenção para a cena em que a “inocente” Gina se depara sozinha com um bruxo [lobisomem?], lembrei-me do lobo mau); podemos observar como as vidraças emolduram os casais apaixonados nas torres de Hogwarts; gostaria de destacar também os planos em que Draco Malfoy aparece solitário e marginal, e que produz uma tocante rima visual com a sempre rica metáfora do pássaro engaiolado[2], muito bem incorporada e motivada na composição narrativa do filme.Todos os planos e seqüências, em conjunto com o trabalho cenográfico, são pincelados na tela por uma primorosa direção de fotografia, que, como já mencionei, realça em tons de cinza os ambientes sombrios e inóspitos dos arredores de Hogwarts. As tonalidades frias ressaltam, com a chuva e a atmosfera nublada, a presença constante do Mal, e contrastam com os poucos lugares acolhedores para os protagonistas, como a quente e aconchegante casa dos Weasley e os quartos de Hogwarts.Assim como na trilogia O Senhor dos Anéis, aparece neste filme, ainda mais presente como um personagem secundário, um céu constantemente turbulento, e pontualmente composto por traços explícitos do Mal (na figura nuviosa de uma cobra ou crânio). Algumas das cenas de maior impacto emocional do filme dão-se tendo o tenebroso céu acinzentado como pano de fundo (comentarei algumas delas mais abaixo).Finalizando alguns apontamentos sobre os aspectos técnicos deste 6º filme, não posso deixar de ressaltar o brilhante uso do plano contra-plongée[3] no último ato, quando Harry confronta-se com Snape e este se impõe sobre ele, criando um plano arrebatador, extremamente significativo para a as circunstâncias do enredo, evidenciando um grande Mal que se prostra frente ao Bem momentaneamente impotente (atentem-se para a casa em chamas ao fundo, me fez lembrar uma impressionante cena de Os Sete Samurais, de Akira Kurosawa). Estas composições técnicas definitivamente coroaram o excepcional trabalho do diretor David Yates. Apostaria em Harry Potter e o enigma do príncipe como forte candidato às categorias técnicas do Oscar 2010: direção de fotografia, montagem, edição de efeitos visuais e sonoros, etc.Enfim, cabe agora um breve comentário sobre o desenvolvimento de alguns personagens e de algumas tramas centrais, que poderíamos considerar como principal fator para a plena maturidade cinematográfica da série, alcançada neste 6º filme.Realmente, depois de seis filmes convivendo com as mesmas personagens, tanto os expectadores da série nos cinemas, quanto os próprios atores, sentem-se confortáveis e preparados para compreenderem as nuanças de comportamento dos jovens personagens.Daniel Radcliffe (Harry Potter) esmera-se cada vez mais em sua interpretação, dando certa densidade psicológica à personagem, porém ainda não aprofundada (mas este aspecto depende necessariamente da construção da personagem no texto original), aponto como destaque a ótima inversão de comportamento de Potter, após tomar a poção oferecida pelo professor Horácio Slughorn, oferecendo alguns momentos de alívio cômico com suas expressões debochadas e irônicas, mas sempre integradas à motivação da trama. Emma Watson (Hermione) destaca-se neste capítulo da série, proporcionando, para cenas que tratam de seu amor por Ronnie, uma interpretação sensível e apaixonada, desconstruindo sua postura sempre firme e racional (lindíssima a cena em que se encontra sozinha, envolta por passarinhos mágicos, produzidos por sua magia e lágrimas).Harry Potter e o enigma do príncipe desenvolve interessantemente dois personagens com fortes contornos trágicos: Draco Malfoy (Tom Felton) e Alvo Dumbledore (Michael Gambon).Malfoy é arregimentado pelas forças malignas de lord Voldemort, e a ele é imposta a ardilosa tarefa de trazer para Hogwarts os mais temíveis comensais da morte, além de, no último ato, ser impelido a matar Dumbledore. Draco, assim como Harry, é jovem e ainda incapaz de sustentar tal fardo, sofre com o peso da família patriarcal, partidária das forças do Mal, e impõe a si mesmo a reclusão e, consequentemente solidão. Como um pássaro engaiolado, mergulha num triste conflito interno, dividido entre dois lados inconstantes de sua consciência, o Bem e o Mal (reparem na cena em que a personagem aparece com metade do rosto encoberto pela sombra de uma parede; e também em como ele reage quando vê um pássaro morto, possivelmente identificando-se com a condição do pobre inocente). Draco Malfoy representa um tocante questionamento de como a imposição do destino e das tragédias adultas marcam profundamente a personalidade de um adolescente em formação, forçado a amadurecer rapidamente. Sustentando brilhantemente os contornos trágicos da personagem, Tom Felton talvez encarne nos próximos capítulos uma das personagens mais interessantes do mundo adolescente de Harry Potter.Mas é por Alvo Dumbledore que choramos ao fim da projeção, e cabe a ele tomar para si um dos mais temidos fardos da existência humana, o envelhecimento e a morte. Realmente, é cômica e debochada a atitude de Dumbledore ao encontrar, numa casa “trouxa”, revistas de Crochê; no entanto, tal atitude será sempre retomada indiretamente, em vários momentos em que ele mesmo ressalta sua velhice. É tocante percebermos que assim como para todos os “trouxas”, a velhice e suas excentricidades chega também para todos os bruxos. Dumbledore representa muito bem este momento, apresenta-se mais afetivo para com Harry e também mais contemplativo, como que vislumbrando o mundo pela última vez (emocionante e significativa a cena final de sua morte, quando o sol se põe no horizonte, a suas costas).A morte de Dumbledore é construída ao longo da projeção. Particularmente no quarto ato dá-se o processo final, a trajetória final de Dumbledore e sua última aventura. Os indícios de seu sacrifício são ricamente delineados nas cenas que seguem à avassaladora tomada panorâmica dos rochedos frente ao mar turbulento (salientando a pequenez dos protagonistas frente ao Mal que se impõe sobre eles). O sangue derramado por Dumbledore, no lugar de Harry, privilegia possíveis conotações sagradas de sacrifício (a questão do martírio é retomada de forma dramática quando o sábio mago pede água à Harry, e este não pode atendê-lo); o pequeno lago que atravessam utilizando um barco possui clara alusão ao rio dos mortos da mitologia; a própria questão da travessia é símbolo da mudança e da provação; e a espetacular tomada em que Dumbledore salva a si mesmo e Harry pela última vez já é suficiente para o impacto dramático do conseqüente desfecho trágico da personagem.Após a morte de Dumbledore, segue-se, na minha opinião, uma das cenas mais emocionantes da série até aqui: circundando o corpo inerte de Dumbledore, bruxos sensibilizados com o sacrifício do mestre erguem suas varinhas num último alento, envoltos por muita dor e pesar, e buscam entre as nuvens escuras e tenebrosas do Mal, um traço de luz e de esperança.Creio que me estendi por demais nesta crítica, e mesmo assim, não tratei de todos os aspectos que gostaria de tratar. Gostaria de assinalar ao menos para uma outra rica metáfora, também pertinente para a evolução psicológica de alguns personagens nestes últimos episódios da série: o aquário sem água, que deve se encher novamente. Lembrando do derradeiro pedido de Dumbledore: água/esperança/vida.Fechando a crítica, acredito que este último filme da série é seu melhor exemplar. Adotando uma postura mais crítica e inventiva quanto ao seu processo adaptativo (do livro para as telas), Harry Potter e o enigma do príncipe esbanja primor técnico e várias sutilezas de filmagem, acrescentando à obra fílmica um elevado padrão de qualidade cinematográfica. As tramas centrais foram muito bem conduzidas e sustentadas pelo bem preparado e talentoso elenco, que trouxe dinamismo à série, em ótimos momentos dramáticos. Acredito que as explicações para alguns motivos associados às tramas centrais e secundárias virão nos próximos filmes, ou serão apenas sugeridas, numa adaptação cheia de elipses, que ao tomar certas liberdades conscientes, só acrescentará ao universo mágico da literatura de J. K. Rowling o que o Cinema pode oferecer de melhor, como este brilhante filme, cinco estrelas.

[1] Grosso modo, teríamos o primeiro ato ambientado no mundo dos trouxas, o segundo ato já em Hogwarts, primeiro semestre de aulas; terceiro ato com o retorno das férias e as peripécias que levam ao desfecho; quarto ato corresponderia ao desfecho; e a conclusão dar-se-ia num quinto ato.[2] Vejam O Grande Ditador, de Chaplin; O Grande Truque, de Christopher Nolan; e Swnney Todd, de Tim Burton.[3]. “Quando a câmera se encontre abaixo do rosto da personagem, o plano é chamado de contra-plongée. O principal objetivo deste tipo de plano é evidenciar características psicológicas dos personagens ou evidenciar situações nas quais esses personagens se encontram, como a câmera se situa abaixo do rosto do personagem, este aparece engrandecido pela imagem, o que transmite a sensação de superioridade, paternalismo, força, grandeza ou altivez.”